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Após retificação do nome do filho, pai que foi levado por circo quando era criança resgata nome verdadeiro

Ter o seu nome completo no documento do filho mais novo, representa, para um homem de 57 anos, muito mais do que um papel: trata-se do encerramento de um ciclo de sofrimento. 

 

Após ter se perdido da família aos 10 anos de idade, perder seu nome e viver em situação de miséria em um circo até os 18 anos, ele reescreveu sua história, resgatando seu nome verdadeiro e o incluindo na documentação de seus filhos.

 

Com a atuação da Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE-GO), via Subdefensoria Pública-Geral para Assuntos Institucionais, a última etapa desse passado ficou para trás, com a entrega da nova certidão de nascimento ao seu filho adolescente no último dia 06.

 

Em 1975, ele morava no município de Goiás. Por ser criança naquela época, ele não se lembra ao certo como se deu sua ida para o circo que fazia uma turnê pela cidade. O fato é que ele seguiu com o grupo, sem compreender o que estava acontecendo: se fora levado ou se simplesmente foi. Em São Paulo, foi registrado novamente e recebeu um novo nome e sobrenome. “Lá eu ajudava a montar e desmontar, trabalhava até de palhaço. Naquela situação, quando não se conhece nada, é a mesma coisa que estar na selva”, relembra.

 

Em sua trajetória com o grupo, não se recorda de alguma ocasião em que pôde sair sozinho pelas ruas ou frequentar a escola. Permaneceu por oito anos sem se afastar da trupe circense. Em situação de miserabilidade, quando completou 18 anos, foi deixado pelos companheiros de circo para vigiar uma carreta em um lote baldio no interior de São Paulo. “Eles me enganaram. Me deixaram uma carreta, num lote vago, pra eu cuidar, saíram e eu fiquei lá esperando”, recorda. Sem comida, sem água, sem dinheiro. Passaram-se alguns dias, ninguém retornou.

 

Ele começou a vagar pelas redondezas pedindo comida. Bebia a água acumulada em poças de água, ao longo do meio-fio. Comia pedaços de pão jogados no lixo. Após 15 dias sem qualquer ajuda, uma moradora se sensibilizou. Houve a mobilização de algumas pessoas, que custearam a passagem para que ele retornasse a Goiás. A única lembrança que possuía era o nome da cidade de onde viera. Porém, tantos anos depois, não conseguiu encontrar a família no município de Goiás e se mudou para Aparecida de Goiânia.

 

Casou-se e teve três filhos, o mais novo nascido em 2007. Ao frequentar a igreja, por volta de 2014, ele avistou uma moça e uma idosa. A mulher o reconheceu e percebeu que já se conheciam. Em um momento, após esse primeiro contato, foram conversando e a senhora afirmou que tinha perdido um filho no passado, ainda quando morava na cidade de Goiás. 

 

Aquela era sua mãe. Os dois se reaproximaram e ele redescobriu sua família. “Foi só a choradeira mesmo”, conta. A matriarca lhe revelou que o nome pelo qual era conhecido não era seu nome verdadeiro.

 

Retificação de nome

 

Ele então retificou seus documentos pessoais, com seu nome real e filiação. Nesse período ele e a companheira se separaram. Em 2018, a ex-esposa faleceu. Os dois filhos mais velhos, com mais de 18 anos, puderam retificar sua documentação diretamente no cartório. O caçula, de 14 anos, não pôde, em virtude da idade. Para isso seria necessário ingressar com ação judicial. O adolescente começou a sofrer bullying na escola, com os colegas falando que ele não era filho daquele que “dizia ser seu pai” e era seu único responsável.

 

Quatro anos depois, os caminhos da Defensoria e da família se encontraram. Em uma edição do projeto Defensoria Itinerante, em Aparecida de Goiânia, Pedro buscou ajuda. Ele havia procurado um cartório, onde foi informado da necessidade de judicializar a demanda. “Fui recebido bem todas as vezes, por todos os funcionários. Me trataram com o maior carinho, com respeito. Isso é importante, porque os outros julgam a gente pela roupa que a gente veste”, comenta Pedro.

 

A maior dificuldade encontrada pelo homem para a retificação do registro foi que acreditassem em sua história. “As pessoas achavam que eu estava inventando, que era mentira. Imagina, você dizer que viveu com o pessoal do circo?”, conta. Ao chegar na Defensoria, foi a estagiária Maiza Helena Freitas dos Reis Estevão que realizou o primeiro atendimento e começou a investigar o caso. Com tamanha surpresa, relatou a demanda à subdefensora-geral Débora Vidal, que envolveu toda a equipe para desenlaçar os nós dessa história.

 

O trabalho resultou no protocolo de petição para a retificação do registro civil do adolescente, filho, no dia 15 de fevereiro de 2022. Foram elaborados laudos psicossociais, realizado exame de DNA e juntada documentação para comprovar o vínculo entre pai e filho, bem como a identidade do patriarca. No dia 03 de outubro último, a DPE-GO obteve a decisão favorável. 

 

Depois de transitado e julgado, o caso teve o desfecho com a emissão da nova certidão de nascimento para o garoto. 

 

Fonte: Rota Jurídica