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Clipping – Nexo Jornal – Qual o estágio da pandemia no Brasil após 30 mil mortes

Segundo país mais atingido pela pandemia do novo coronavírus no mundo, com mais de meio milhão de casos confirmados, o Brasil bateu na terça-feira (2) um recorde de mortes registradas num único dia (1.262) e ultrapassou a marca das 30 mil vítimas da doença (já são 31.199).

Com uma escalada de casos, o Brasil está na quarta posição entre as nações onde a infecção é mais letal, atrás apenas de EUA (105.644 mortes), Reino Unido (39.451) e Itália (33.530).

A diferença é que, nesses países, a situação já se estabilizou, e os registros diários de novos casos estão em queda, enquanto os do Brasil ainda crescem. Em número de mortes registradas por dia, o país caminha para superar os EUA.

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), a América do Sul tornou-se um novo epicentro da doença, puxado pelo avanço dos números no Brasil. Embora as autoridades brasileiras já planejem o afrouxamento das medidas de isolamento social e a retomada de atividades econômicas, o país ainda não atingiu o pico da doença.

Na segunda-feira (1º), o diretor de emergências da OMS, Michael Ryan, disse que a região está longe de alcançar uma estabilidade devido ao rápido aumento da transmissão do vírus. Ele não soube estimar quando a América do Sul chegará ao momento mais crítico da pandemia.

“Nós vemos muitos bons exemplos de países que têm uma abordagem do governo inteiro, da sociedade inteira, baseada na ciência, e vemos em outras situações uma falta e uma fraqueza nisso” – Michael Ryan, diretor de emergências da OMS, em entrevista na segunda-feira (1º).

A situação do Brasil

O Ministério da Saúde não tem um titular em seu comando desde 15 de maio. O general Eduardo Pazuello, secretário-executivo, responde interinamente pelo órgão que tem como função coordenar uma política nacional de enfrentamento à doença. Secretários e governadores reclamam de falta de planejamento do governo federal. Os dois ministros que deixaram a pasta durante a pandemia, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, o fizeram por discordâncias com o presidente da República.

31.199 era o número de mortes pela covid-19 no Brasil até terça-feira (2), de acordo com o Ministério da Saúde.

555.383 casos da doença foram confirmados no país até a mesma data, segundo o órgão.

Jair Bolsonaro é um dos poucos chefes de Estado no mundo que minimizam a gravidade da doença (já chamada por ele de “gripezinha”) e que trabalham contra as medidas de isolamento social adotadas por governadores e prefeitos. Seu incentivo a aglomerações de apoiadores aos finais de semana em Brasília é visto como uma maneira de desmobilizar as quarentenas e confundir a população.

A maioria dos brasileiros, porém, é favorável a medidas até mais rígidas do que as adotadas atualmente, como os lockdowns já testados nas regiões Norte e Nordeste. Essas restrições mais duras à circulação de pessoas que não exercem atividades essenciais são apoiadas por 60% da população, segundo pesquisa Datafolha divulgada em 26 de maio.

Por pressão de prefeitos e empresários, no entanto, alguns governadores apresentaram planos para o retorno à normalidade mesmo com os números em alta. É o caso de João Doria (PSDB), em São Paulo. Ele autorizou a reabertura do comércio em cidades do interior onde a transmissão é mais branda e os hospitais ainda não estão lotados. Na terça-feira (2), o estado registrou 327 mortes, recorde para um período de 24 horas.

Pesquisadores dizem que a retomada no atual estágio é arriscada, por poder causar uma nova onda de contágio. Eles defendem que a flexibilização só ocorra quando a transmissão estiver em queda por ao menos duas semanas, situação ainda distante no Brasil. A própria OMS recomenda que a pandemia esteja sobre controle para que os países possam retomar de forma gradual suas atividades.

O problema dos registros oficiais

O conhecimento da real dimensão da pandemia é a única forma de isolar os doentes, cortar as redes de transmissão e elaborar políticas públicas para o retorno à normalidade e a retomada econômica do país. Essa situação, porém, não é observada no país.

Os números oficiais da doença não retratam a realidade por uma série de fatores. Alguns hospitais, como o Emílio Ribas, em São Paulo, ainda usam fichas de papéis e os casos notificados da doença são enviados em malotes para as unidades regionais da vigilância sanitária, o que atrapalha o acompanhamento da evolução da pandemia em tempo real.

Normas do Ministério da Saúde também permitem que os hospitais concluam a notificação de um caso no sistema por um prazo de até 60 dias entre a internação do doente e a confirmação da doença.

Outro fator de atraso no monitoramento é a demora nos resultados dos exames PCR (que identificam a presença do vírus no organismo a partir de uma amostra de secreções da garganta). Eles levam de três a cinco dias para sair e exigem o preenchimento manual dos profissionais de saúde de um dos sistemas usados pelo ministério para confirmar casos.

A subnotificação de casos e mortes

A primeira pesquisa nacional realizada em amostras da população para tentar estimar a amplitude da doença no país apontou, no final de maio, que o Brasil tem sete vezes mais infectados do que mostram os registros oficiais.

Coordenado pela Ufpel (Universidade Federal de Pelotas), o levantamento realizou testes rápidos, por meio de amostras de sangue, para identificar a presença de anticorpos contra o vírus em 25.025 entrevistados de 133 municípios espalhados pelo país.

Nas 90 cidades onde os pesquisadores conseguiram entrevistar ao menos 200 pessoas, a proporção de contaminados foi de 1,4%. O estudo calculou que, nesses locais, 760 mil brasileiros foram infectados, mas os números oficiais apontavam apenas 104.792 doentes.

Como seis em cada sete doentes não tiveram o diagnóstico e, portanto, não sabem que carregavam o vírus, eles podem involuntariamente transmitir o coronavírus para outras pessoas fazendo a curva de contaminação se acelerar.

“Enquanto as curvas no Brasil não estiverem na descendente ou enquanto a taxa de transmissão brasileira for recordista mundial, nossa recomendação dos cientistas para a população é ficar em casa o máximo possível. Não há nenhuma recomendação científica que justifique a flexibilização das medidas de distanciamento social nesse momento” – Pedro Curi Hallal, coordenador da pesquisa e reitor da UFPel em entrevista à TV RBS.

Além do número de casos, a quantidade de mortes também está subnotificada, como sugerem outros dados. Informações de cartórios compiladas pelo Portal da Transparência do Registro Civil mostram que o número de mortes em casa subiram 10,4% nos dois primeiros meses da pandemia no Brasil. Em estados como o Amazonas, onde os sistemas de saúde e funerário entraram em colapso por causa da pandemia, a alta foi de 149%.

Isso sugere que muitas pessoas, com covid-19 ou vítimas de outras doenças, podem estar morrendo antes mesmo de acessarem os serviços de saúde, por vários motivos, como superlotação dos hospitais e falta de vagas em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) ou medo de saírem de casa e se infectar pelo vírus.

A falta de testes

Uma das recomendações da OMS sempre foi testar em massa a população, o que poucos países do mundo conseguiram fazer. O Ministério da Saúde chegou a prometer 46,2 milhões de testes aos estados, mas só entregou até o final de maio cerca de 10 milhões.

O governo alega dificuldades de comprar os exames no exterior, devido à alta procura e concorrência com outros países. Muitos dos testes adquiridos também têm sua eficácia questionada. Países como Espanha e Reino Unido acabaram descartando testes rápidos chineses por eles não funcionarem direito.

O Brasil é um dos países mais infectados que menos testou proporcionalmente sua população. Dados compilados pelo site Worldometers mostram que o país realizou 4.378 testes para cada um milhão de habitantes. Países como Rússia (76.418), Itália (65.527), Estados Unidos (55.376) e França (21.216) testaram muito mais.

A interiorização do vírus

Se antes a doença atingia mais as grandes capitais, com o tempo o vírus começou a se espalhar para o interior do país. No final de abril, uma nota da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) já chamava a atenção para o problema, mostrando que, entre os municípios com mais de 100 mil habitantes, praticamente todos já registravam casos.

Segundo um levantamento feito pelo jornal O Estado de S. Paulo com base nos dados das secretarias estaduais de Saúde, até 28 de maio um terço de todos os casos já estavam em cidades do interior. A região apresentava ritmo de crescimento mais acelerado do que as capitais.

Os infectados nos municípios do interior representavam apenas 12,4% de todos os casos do país no final de março. Esse número saltou para 18,6% no fim de abril e para 34,5% no fim de maio. Algo semelhante aconteceu com as mortes. Apenas 9,2% delas estavam no interior no fim de março. Passaram para 17,8% em abril e para 22% em maio.

A interiorização representa um risco porque os sistemas de saúde locais não possuem a mesma estrutura e capacidade dos das capitais. Os doentes em cidades pequenas podem ser forçados a procurar atendimento nas cidades grandes, o que pode fazer com que os hospitais dessas localidades entrem em colapso.